segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MINHA TERRA TEM PAU D’ARCOS, E ALGUNS POUCOS SABIÁS



Por Alexandre Moca.


Contarei e cantarei as floradas dos pau d’arcos enquanto existirmos, elas e eu. Elas, desabrochadas na copa de suas árvores enraizadas aos solos drenados das encostas da Serra da Jurema, nas cercanias da minha aldeia. Elas que nos finais de ano se exibem, belas e pontuais.
      Tal qual os pau d’arcos, aqui também finquei raízes e estas se tornaram vigorosas e profundas, como tivessem sido banhadas e nutridas pelo que foi o dadivoso aluvião do Rio Guarabira, hoje morto pela minha omissão e pela omissão e desleixo de tantos outros aldeões.


Estas árvores, a despeito dos invernos cada vez mais escassos, vão buscar nas entranhas da terra a força necessária para exibirem a beleza das suas flores brancas, amarelas e roxas, novembros a fio, dezembros seguidos, esbanjando exuberância, presenteando a cidade aniversariante espraiada no sopé, semiárida e brejeira, piemontesa rainha.
Não acredito que passe despercebido pela maioria dos nossos aldeões, este espetáculo que, mesmo efêmero, singular e de minguante beleza, grita por um olhar preservacionista. Se a cena descrita deixasse de importar, estaríamos acometidos de uma síndrome coletiva rara, como raras costumam ser todas as síndromes.
A doença impediria o nosso cérebro de processar as imagens e de mandá-las aos nossos corações para senti-las. Sendo assim, de nada adiantaria a beleza das coisas, das pessoas, das paisagens.


Se já são poucos os pau d’arcos, o que dizer dos sabiás, os do papo alaranjado, cantadores da esperança, anunciadores da chuva. Seu canto é música para os ouvidos de quem se aventura pelas velhas trilhas da Serra, secularmente compactadas pelo pisoteio dos mulos de carga. As mais íngremes, bonitas e escondidas delas, descortinam belas paisagens e constituem um testemunho da coragem e da esperteza dos aguardenteiros e rapadureiros no jogo de gato e rato com o fisco de então.
Casas de morro acima. A cidade avança sobre a serra, que virou plantação de antenas e espaço para um tipo de fé em extinção, só não mais que os pau d’arcos e os sabiás.


A água de morro abaixo sobre o solo descoberto dos loteamentos consentidos e chancelados pelo poder público, vai abrindo sulcos profundos sobre o terra nua, expondo a fragilidade da rocha, exibida como um troféu à insanidade.
Como um Saara que lança areia do deserto sobre Roma, não tardará o abarrotamento das sarjetas e o consequente infarto dos bueiros. O que hoje é serra poderá ir parar no leito morto, assoreando ainda mais o que restou da calha natural do Rio da nossa aldeia, para cujo curso a cidade deu as costas, como se tivesse vergonha dele.
Se já são raros os sabiás empoleirados nos poucos pau d’arcos que restam na Serra, o que dizer daqueles outros sabiás, que se empoleiravam em toscos palanques improvisados sobre tambores de querosene ou em carrocerias de caminhão e com o seu canto anunciavam o futuro, tal qual os sabiás laranjeira anunciam o inverno.
Para onde foram eles ? Para que outro habitat migraram ? Será que foram extintos ? Quem seria o ornitólogo capaz de nos dar essa resposta ?
Desse tipo específico de fauna à qual me refiro agora, sobraram umas poucas aves de maior porte, que acabaram se tornando de rapina. Não possuem canto ou encanto que traga alento aos nossos ouvidos e que não inspirem outro sentimento, a não ser o de medo do predador.
Quanto nos faz falta, de vez em quando, o gorgeio ébrio de uma “avis rara” que em delírio fez sua escolha: Guarabira ou Paris, estabelecendo uma ponte preferencial entre a cidade Senhora da Luz e a cidade Luz, no velho mundo, colocando-as no mesmo plano.
Na esteira do desequilíbrio ambiental dessa fauna, proliferaram os miúdos e acanalhados pardais, de plumagem feia e rabugenta, cuja algazarra pode ser vista e ouvida à distância, amplificada pelas rádios e pelas redes sociais.
Enquanto disputam ávidos e a bicadas as migalhas e farelos que lhes sobram, tais aves, algumas delas possuidoras até de delegação, são capazes de passar tardes/noites a fio, cuidando apenas dos seus próprios interesses, cinicamente declarados.
       Para eles as manhãs, a chuva e a esperança não têm qualquer significado. Não lembram em nenhum momento o porquê e o para quê forçaram suas próprias escolhas como representantes. Mal sabem que são a dieta predileta das grandes aves de rapina.
Nesse espaço degradado, não cantam mais sabiás, sequer sobrevivem em ambiente tão iníquo. Contudo, mesmo sem o talento dos sabiás, esboço meu canto e a minha esperança no futuro, pois habito os galhos dessa árvore citadina onde fiz ninho e tirei a minha ninhada.
O 26 de novembro, data da nossa emancipação, é como a florada dos pau d’arcos na Serra da Jurema. Chegam juntos e precisam ser mostrados, vistos e, acima de tudo, preservados, como símbolos vivificantes da nossa senda. Constituem, neste particular, um presente e uma provocação ao nosso olhar cada vez mais semiárido, ressecado e ressabiado.
Parabéns Guarabira!