CONTO SOBRE LAMPIÃO
O transporte de mercadorias entre um ponto e outro nas terras do Nordeste brasileiro, nas primeiras décadas do século XX, diante da falta de estradas e de automóveis, era feito pelos almocreves no lombo dos seus animais de carga, sob sol ou inverno. O importante era cumprir a tarefa e fazer a entrega de acordo com o contrato celebrado, geralmente de forma verbal. Ali a palavra do homem valia muito e era sempre cumprida, por questões de honradez.
Li na obra Mundo-Sertão: terra não revelada, do escritor pernambucano Pedro Nunes Filho, o conto “Acerto de Contas” que diz que em 1915, um jovem com idade entre 15 e 16 anos, que exercia a profissão de almocreve, chegou à Estação de Mimoso, no município de Pesqueira-PE e procurou saber do chefe da estação se tinha alguma mercadoria a ser conduzida até a cidade de Serra Talhada. O cidadão lhe informou que tinha uma mobília, mas para a cidade de Alagoa do Monteiro, na Paraíba, para ser entregue a Lino Ferreira Lucas, e o frete seria pago no ato da entrega. Tudo acertado, o jovem amarrou os móveis e uma cama de casal nos animais e partiu para cumprir a obrigação.
Depois de muito caminhar, numa subida de serra a estrada estreita passava entre duas grandes rochas, e numa delas o animal só conseguiu passar muito apertadamente e quebrou a grade da cama. O jovem arrumou a carga e continuou a longa e cansativa viagem.
Ao chegar a Alagoa do Monteiro o almocreve procurou o destinatário da mercadoria, explicou-lhe o acidente, fez a entrega e aguardou o pagamento do frete. O senhor Lino disse-lhe, porém, que nada tinha a acertar porque o dinheiro do frete seria para pagar o conserto da grade da cama. O jovem saiu calado e foi embora sem receber o frete.
Em 1926, o cangaceiro Lampião estava em Princesa Isabel, Alto Sertão paraibano, e encontrou uma pessoa de Alagoa do Monteiro. Perguntou-lhe de pronto se conhecia um homem chamado Lino Ferreira, que vivia alisando o banco da casa do Coronel Pimentel. Sabedor de que o homem conhecia Lino Ferreira,. Lampião mandou avisar que a qualquer hora passaria por lá para acertar o frete de uma cama que ele não pagara.
Quando seu Lino recebeu o recado, compreendeu que o jovem almocreve era Virgulino Ferreira, e perdeu a tranquilidade.
A propósito, a Casa da Cultura de Serra Talhada, registrou o furto dos óculos de Lampião, na noite de 11 de dezembro de 2011, desfalcando o acervo do “Rei do Cangaço” ali mantido. Sobre o assunto diz na íntegra em comunicado o presidente do museu Tarcisio Rodrigues:
“A Fundação Casa da Cultura de Serra Talhada comunica e torna público que entre às 18h e 22h do dia 11 de dezembro, foi furtado do acervo do MUSEU DA CIDADE um par de óculos em ouro 16 que pertenceu a Virgolino Ferreira da Silva (Lampião).”
“A peça em questão é de valor inestimável pela sua importância histórica. Foi tema de documentário do canal history Channel (Detetives da História) e foi autenticada como legítima, de propriedade do “rei” do cangaço, tendo sido doada ao Museu da Cidade por descendentes de antigo “coiteiro” do cangaceiro.”
Infelizmente ainda existem pessoas que agem assim, prejudicando a História do Nordeste brasileiro.