Cada
vez mais isolado, dentro e fora de seu partido, o presidente da Câmara, Eduardo
Cunha, prepara sua saída do cargo de forma magistral, segundo fontes adiantaram
ao Correio do Brasil,
nesta segunda-feira. Cunha não digeriu, até agora, o discurso de seu hoje
ex-aliado no PSDB, o senador Aécio Neves (MG) e a expectativa, antes da
possível queda nos próximos dias, é quem ele levará junto, na descida, após
avisar aos navegantes: “Não vou cair sozinho”.
Neves
desembarcou da aventura golpista liderada por Cunha, ao perceber que a campanha
para o impedimento da presidenta Dilma Rousseff fez água, no momento em que o
procurador-geral da República, Rodrigo Janot, arquivou a denúncia do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) contra a campanha da petista, em 2014.
O
desembarque de Neves, no entanto, foi mais ruidoso do que Cunha esperava. A
ponto de aguardar, sem sucesso, uma reparação do ex-aliado, na noite passada.
Um grupo de 15 deputados já apresentou pedido de afastamento de Eduardo Cunha
do comando da Casa e seu único ponto de apoio, com capacidade para segurá-lo no
posto, cedeu. O PSDB, que até a semana passada dava sustentação ao parlamentar
carioca, já passa a considerá-lo uma ameaça ao discurso jacobino da direita.
Até
a proteção da mídia conservadora, que ainda mantinha Eduardo Cunha longe dos
holofotes da opinião pública, começa a transparecer os primeiros sinais de
fadiga. Na edição desta semana, a revista Época
dispara mais um petardo contra o presidente da Câmara Federal, na reportagem
intitulada A derrocada de
Eduardo Cunha.
Em
entrevista a um programa na TV aberta, neste domingo, o líder da bancada
peemedebista na Câmara, Leonardo Picciani – principal aliado de Cunha no
partido – tentou acalmar aqueles que preveem um período conturbado no
Legislativo, caso o STF aceite a denúncia de Janot. O presidente da Câmara
seguirá “os ritos democráticos, como não poderia deixar de ser”, segundo o
parlamentar.
Esquema
de corrupção. “Rápido,
incansável, agressivo e acuado em uma situação muito delicada, o presidente da
Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, causa apreensão em Brasília. Na tarde da quinta-feira,
dia 20, colegas do PMDB souberam que Cunha mandou ao vice-presidente da
República, Michel Temer, aquele clássico aviso de ‘não vou cair sozinho’,
disparado quando a tensão fica alta na região mais escura do espectro político.
Durante anos, Cunha e Temer foram muito próximos no PMDB. O governo sabe que
não será poupado da ira de Cunha, apesar do discurso oficial otimista espalhado
por ministros petistas”, afirma a revista semanal de propriedade das
Organizações Globo.
Cunha
tem até o próximo dia 10 para responder à denúncia do procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF), na qual ele pede
184 anos de prisão para o possível réu. Cunha é um dos envolvidos no esquema de
corrupção que drenou cerca de R$ 80 bilhões da Petrobras. Na peça jurídica
encaminhada ao STF, Cunha é acusado, em 85 páginas, por crimes de corrupção
passiva e lavagem de dinheiro. Segundo Janot, ele teria recebido cerca de US$ 5
milhões em propinas, no contrato celebrado entre a estatal e a empresa coreana
Samsung. Janot pede ao Supremo que Cunha devolva US$ 80 milhões – equivalentes
a cerca de R$ 280 milhões.
Cunha
teria usado a igreja a que pertence, a Assembleia de Deus em Madureira, Zona
Norte do Rio, segundo investigações da Polícia Federal (PF), para lavar
dinheiro e distribuir parte da propina arrecadada, durante sua campanha
eleitoral. A Operação Lava Jato, da PF, Cunha estaria envolvido em outros
crimes, ainda em fase de apuração.
‘Acordão’. “A ação de Janot desestabiliza Cunha
severamente. Entretanto, devido ao cargo do deputado, o seu perfil pessoal e ao
atual cenário político, torna-o ainda mais perigoso para a estabilidade do
país”, afirmou Época. “Cunha tende a ameaçar colegas como o presidente do
Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também acusado pela Operação Lava Jato e que
recentemente se aproximou da presidente Dilma Rousseff. Cunha pediu a aliados
que aprovem a convocação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, para
depor na CPI da Petrobras. Afilhado de Renan, Machado permaneceu 11 anos na
Presidência da subsidiária da Petrobras, de onde saiu por ter sido mencionado
pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa como pagador de uma propina de R$ 500 mil”,
acrescentou a reportagem da revista.
Em
nota, Cunha negou as acusações, mas não tentou se explicar diante das
denúncias. Preferiu atribuir a ação da Procuradoria-Geral da República a um
complô entre Janot e o governo contra ele. Segundo afirmou, haveria um
“acordão” que inclui a preservação de outro acusado pela Lava Jato, o
presidente do Senado, Renan Calheiros.
–
Não participei e não participo de qualquer acordão e certamente, com o
desenrolar, assistiremos à comprovação da atuação do governo, que já propôs a
recondução do procurador, na tentativa de calar e retaliar minha atuação
política – defende-se Cunha. Fonte: Correio do Brasil.
