Em
algum momento entre os anos de 1985 e 1993, um jovem índio yanomami que vivia
na região amazônica foi caçar e acabou sendo surpreendido por um garimpeiro que
atirou. Aquela tinha sido a primeira vez em que ele entrara em contato com um
homem branco. “Ele vivia na mata e os garimpeiros estavam entrando na terra
deles. Eles foram caçar e os garimpeiros viram e atiraram. A primeira vez em
que ele viu um homem branco, atiraram nele. E ele foi salvo pelos pilotos dos
garimpeiros que ficaram com pena dele e o levaram para Boa Vista”, disse João
Paulo Farkas, o fotógrafo que narrou essa história para a Agência Brasile que
fez uma imagem do índio baleado, já em Boa Vista, registro esse que compõe a
exposição Amazônia Ocupada,
em cartaz no Sesc Bom Retiro, na capital paulista, que começou ontem (24) e
termina no dia 1º de novembro.
A
mostra reúne 75 imagens, a maioria delas inéditas, feitas por Farkas entre 1985
e 1993 na Amazônia e narram a ocupação da região. As fotos foram selecionadas
entre um amplo material produzido em nove expedições do fotógrafo para a
região, grande parte delas em companhia do jornalista Ricardo Lessa. A
curadoria da exposição é de Paulo Herkenhoff. Quinze dessas imagens foram
ampliadas e serão colocadas na rua. “Haverá uma outra exposição do lado de
fora, onde serão colocadas 15 imagens na rua, onde há muito tráfego de
pedestres e automóveis”.
Entre
as imagens da exposição, há também o registro destes homens que compõem o outro
lado dessa história: os garimpeiros. “Mas ao mesmo tempo, fomos visitar índios
Uru-Eu [Uru-Eu-Wau-Wau] e eles tinham matado um garimpeiro. Os garimpeiros
começaram a entrar na terra deles e eles os mataram. Então você via os dois
lados da história”, contou Farkas, que esteve na região amazônica em diversas
expedições e que pretende contar um pouco do que vivenciou por lá por meio
dessas imagens, direcionada sempre ao ponto de vista humano.
“Essa
história é contada do ponto de vista humano. Há garimpeiros, agricultores,
fazendeiros, comerciantes, barqueiros, seringueiros, índios, missionários,
prostitutas, pilotos de avião, donos de barcos”, relatou Farkas à Agência Brasil.
Toda
essa história é também apresentada em um vídeo feito especialmente para a
exposição. “Tem um vídeo que fizemos para a exposição em que a gente conta
essas histórias [sobre os índios]”, falou o fotógrafo.
O
primeiro convite que recebeu para fotografar a Amazônia foi feito pelos
próprios garimpeiros de ouro e cassiterita, dos garimpos fechados da região
onde só era possível chegar por avião. “Na Amazônia há os garimpos abertos,
onde qualquer um pode chegar de carro e há os fechados, onde você só chega de
avião. Os garimpos fechados ninguém conhecia. Havia toda uma realidade dos
garimpos fechados que são administrados por grandes garimpeiros.
Fomos
para conhecer alguns desses garimpos e ficamos muito impressionados com aquilo
e resolvemos, por conta própria, voltar para retratar essa ocupação que estava
acontecendo na Amazônia”, disse ele. “E quando a visitamos, você mergulha
naquela realidade onde a mata tem uma força, a chuva tem uma força, o ocupante
tem outra força. E essas forças estão se digladiando e lutando lá. Então, do
ponto de vista fotográfico é muito rico,” explicou.
A
exposição é gratuita. “Aprendi que a aventura humana é sempre rica em histórias
e é preciso dar voz para aqueles que fazem a história todos os dias e não
apenas aos grandes fatos e grandes personagens. O brasileiro anônimo nos
confins da Amazônia tem muito a nos contar sobre os destinos da região”, falou
Farkas. Com informações do Estadão Conteúdo. Fonte: Portal Notícias ao Minuto
